Na noite de 13 de julho de 1977, a cidade de Nova York mergulhou na escuridão por quase 25 horas após uma sequência de falhas no sistema elétrico. O apagão de Nova York 1977 ficou marcado não apenas pela falta de energia, mas pelo caos urbano, saques, incêndios e colapso de serviços essenciais. Décadas depois, o episódio ainda serve como alerta para grandes cidades como São Paulo, que dependem cada vez mais de uma rede elétrica estável.
Quando a maior cidade dos EUA apagou de uma vez
Dia 13 de julho de 1977, terça-feira. 21h34. Um raio atingiu a subestação de Buchanan South, no Rio Hudson. Parecia comum, mas dois disjuntores principais falharam em sequência. O operador da rede, o lendário e problemático Consolidated Edison (Con Ed), demorou a reagir. Em menos de uma hora, 9 milhões de pessoas ficaram no escuro.
O detalhe que poucos lembram: já fazia 12 anos que NY tinha sofrido o megapagão de 1965. Eles sabiam que era possível. Mas não corrigiram as fragilidades.
Em menos de uma hora:
- O metrô parou
- Elevadores travaram
- Semáforos desligaram
- Hospitais acionaram geradores
- Bairros inteiros ficaram no escuro
O resultado foi um cenário que muitos descrevem como uma cidade “paralisada”.
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O que aconteceu de verdade nas ruas (não é o que você vê em filme)

Enquanto a luz não voltava, aconteceu o seguinte:
- Mais de 1.600 lojas saqueadas. Muitas delas, pequenos comerciantes que nunca se recuperaram.
- Mais de 1.000 incêndios só na madrugada. O Corpo de Bombeiros trabalhava com iluminação de faróis de caminhão.
- A polícia prendeu 3.776 pessoas, o maior número da história da cidade por um único evento.
- Bairros como Bushwick, no Brooklyn, viraram zona de guerra. As imagens aéreas mostravam quarteirões inteiros em chamas.
O prejuízo financeiro ultrapassou US$ 300 milhões na época, valor que hoje seria equivalente a quase US$ 1,5 bilhão. Mas o impacto mais profundo foi social: a confiança da população no poder público ficou abalada por muitos anos após o apagão.
Curiosidade real: o cineasta Abel Ferrara usou esse apagão como pano de fundo de O Rei de Nova York. Moradores do Brooklyn até hoje contam que “naquela noite, tudo foi permitido”.
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Por que não foi só “um raio deu azar”?

Porque o sistema elétrico de NY já operava no limite. Verão de 1977, onda de calor, ar-condicionado ligado 24h, linhas de transmissão sobrecarregadas. O raio foi o gatilho, mas a causa raiz foi falta de redundância e manutenção postergada.
Soa familiar?
São Paulo vive hoje o mesmo enredo: demanda crescente, subestações operando no amarelo, falta de investimento em redes subterrâneas em bairros de alta densidade e uma dependência crítica do sistema interligado nacional (SIN) sem reservas locais robustas.
O que São Paulo pode aprender com isso?
A comparação com São Paulo não é exagero. A capital paulista possui milhões de habitantes, alta densidade urbana e enorme dependência tecnológica.
1. O problema não é o apagão. É a primeira hora após ele.
Em NY, os saques começaram 20 minutos depois do blecaute. Por quê? Porque não havia comunicação de emergência em tempo real, nem iluminação de reserva nas ruas, e o policiamento foi reativo, não preventivo.
Em São Paulo, já vimos no apagão de 2023 (que afetou 1,5 milhão de clientes da Enel em novembro) que semáforos apagados viram cruzamentos infernais, e o risco de arrastões em lojas cresce exponencialmente quando não há plano de contingência para o comércio popular.
2. Subestação de bairro não é “coisa técnica”. É segurança pública.
A Enel SP tem mais de 800 subestações. Quantas têm monitoramento remoto com bateria para 48h? Quantas têm gerador próprio? Após o apagão de 1977, o Con Ed instalou baterias de backup em todas as subestações críticas, e os blecautes seguintes (como o de 2003) tiveram danos muito menores porque a recomposição foi mais rápida.
3. Informação ao cidadão não é cortesia. É ferramenta anticaos.
Em NY, a rádio WINS ficou no ar com gerador próprio e virou a única fonte confiável. As pessoas sabiam onde havia água, qual hospital estava funcionando e quais ruas evitar.
Hoje São Paulo tem sistemas digitais, mas eles falham se a internet cair. A Enel usa SMS e WhatsApp, ambos dependem de rede de telefonia, que também cai em apagão extenso. Falta um plano analógico de redundância: rádio AM, carros de som, pontos fixos com bateria.
4. Relâmpagos não são desculpa. São previsíveis.
Nova York aprendeu da pior forma. Depois de 1977, instalaram para-raios de nova geração e proteções automáticas em todos os alimentadores críticos. As concessionárias brasileiras já têm essa tecnologia, mas nem todas aplicaram de forma sistemática.
Um dado real: a AES Eletropaulo (antes da Enel) mapeava raios em tempo real já em 2010. O que falta é integração entre previsão meteorológica e desligamento preventivo de circuitos vulneráveis.
Um experimento mental: se o mesmo raio caísse em Guarulhos amanhã
Imagine: 19h, quarta-feira, pico do horário comercial. Um raio atinge a subestação Bosque Maia, que alimenta parte do centro de Guarulhos e a linha 13-Jade da CPTM. A proteção falha por manutenção atrasada. Em 15 minutos, 300 mil pessoas ficam sem luz.
O que aconteceria em São Paulo?
- O Metrô pararia (linhas 2-verde e 15-prata dependem da mesma subestação indiretamente).
- Os semáforos na Marginal Tietê apagariam, causando engarrafamento em minutos.
- Hospitais públicos têm gerador, mas pequenas clínicas não.
- O sistema de bombeamento da Sabesp cairia, com risco de desabastecimento em 24h.
Parece exagero? Foi exatamente o que ocorreu em NY. Só que lá, em 1977, a população já vivia uma crise fiscal e uma onda de calor. Não foi “azar”. Foi o encontro de um sistema frágil com uma cidade estressada.
Conclusão (sem rodeio)
O apagão de Nova York em 1977 não foi um evento natural inevitável. Foi uma falha de projeto, agravada pela falta de preparo de uma cidade à beira do colapso. São Paulo está exatamente no mesmo ponto. A pergunta não é se um grande apagão vai acontecer, mas quando. E você, leitor, pode começar agora: pergunte ao seu vereador qual o plano da Prefeitura para o próximo blecaute. A resposta pode te assustar, mas é essencial para exigir mudanças.
